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Termos, correntes, práticas e tecnologias da música experimental, electroacústica, noise e campos afins — com hipertexto, histórico e crédito. Escrita pela comunidade, revisada pela curadoria: sugira um verbete.
Música apresentada exclusivamente por alto-falantes, sem performers visíveis. O termo vem de Pierre Schaeffer, que o derivou dos akousmatikoi pitagóricos — discípulos que ouviam o mestre sem vê-lo. A condição acusmática rompe o vínculo entre som e gesto, forçando escuta pura.
Schaeffer, Pierre. Traité des objets musicaux. Paris: Seuil, 1966.
Smalley, Denis. "Spectromorphology: explaining sound-shapes." Organised Sound 2.2 (1997): 107-126.
FALTA UM TERMO?
O glossário é um documento vivo e curado. Sugestões de novos verbetes passam por revisão editorial antes de publicação.
Técnica composicional em que o acaso é incorporado dentro de limites definidos pelo compositor — parâmetros fixos com resultados variáveis a cada execução. Associada a Earle Brown, John Cage e Witold Lutosławski.
Cage, John. Silence. Middletown: Wesleyan University Press, 1961.
Sistema de codificação e reprodução de som espacial em três dimensões, desenvolvido nos anos 1970 por Michael Gerzon. Permite representar um campo sonoro completo em qualquer número de canais. Usado em instalações, salas de concerto e realidade virtual.
Gerzon, Michael. "Periphony: With-height sound reproduction." J. Audio Eng. Soc. 21.1 (1973): 2-10.
Grupo britânico de livre improvisação fundado em 1965 por Keith Rowe, Lou Gare e Eddie Prévost. Referência central na prática EAI (Electro-Acoustic Improvisation). Abandonaram a ideia de estilo pessoal em favor de escuta coletiva radical.
Prévost, Eddie. No Sound is Innocent. Matching Tye: Copula, 1995.
No contexto do Ruído//BR, "cena" designa o conjunto de práticas, agentes, espaços e redes relacionadas à música experimental, electroacústica e noise — mais amplo que um gênero, mais localizado que uma tradição. Inclui artistas, selos, espaços, publicações, pesquisadores e público.
Bennett, Andy; Peterson, Richard A. (eds). Music Scenes. Nashville: Vanderbilt University Press, 2004.
Prática de modificar fisicamente circuitos eletrônicos de aparelhos de consumo (brinquedos, teclados baratos, walkmans) para produzir sons imprevistos. Popularizada por Reed Ghazala nos anos 1960-70. Parte da tradição DIY e da luteria experimental.
Ghazala, Reed. Circuit-Bending: Build Your Own Alien Instruments. Indianapolis: Wiley, 2005.
Corrente surgida em Paris nos anos 1970 (Gérard Grisey, Tristan Murail) que toma o espectro de frequências de um som como material composicional. A harmonia e o timbre derivam diretamente de análises espectrais, frequentemente via computador.
Murail, Tristan. "Target Practice." Contemporary Music Review 24.2-3 (2005): 149-171.
Grisey, Gérard. "Tempus ex Machina." Contemporary Music Review 2.1 (1987): 239-275.
Ramificação do power electronics que incorpora elementos de música concreta, drone e dark ambient. Texturas mais atmosféricas que o PE puro, temas de mortalidade e colapso industrial. Referências: Raison d'être, Deutsch Nepal, Brighter Death Now.
Performance de música eletroacústica em que o compositor ou intérprete projeta o som por um sistema multicânico de alto-falantes (orquestra de alto-falantes), moldando a espacialização em tempo real.
Harrison, Jonty. "Sound, space, sculpture: some thoughts on the 'what', 'how' and 'why' of sound diffusion." Organised Sound 3.2 (1998): 117-127.
Ética e prática de produzir, distribuir e apresentar música fora dos circuitos comerciais convencionais — gravação caseira, prensagem própria, distribuição direta, espaços autogeridos. Central na cultura noise, industrial e de tape labels.
Spencer, Amy. DIY: The Rise of Lo-Fi Culture. London: Marion Boyars, 2005.
Música baseada em sons sustentados e lentas evoluções de timbre e textura. De La Monte Young (just intonation drones, anos 1960) a Sunn O))), Eliane Radigue e Phill Niblock. Relacionada a práticas de meditação, microtonalismo e escuta expandida.
Young, La Monte; Zazeela, Marian. Selected Writings. Munich: Heiner Friedrich, 1969.
Corrente de livre improvisação que integra instrumentos acústicos e eletrônicos, frequentemente operando em dinâmicas extremamente baixas. Surgiu em Viena e Londres nos anos 1990. Relacionada ao movimento Onkyo japonês.
Toop, David. Haunted Weather: Music, Silence and Memory. London: Serpent's Tail, 2004.
Gênero surgido no início dos anos 1980 (Front 242, Nitzer Ebb) na interseção entre industrial e música de dança. Ritmos repetitivos, vocais agressivos, temáticas de controle e corpo. Influenciou diretamente o industrial techno e o deconstructed club.
Campo fundado por R. Murray Schafer (World Soundscape Project, anos 1970) que estuda as relações entre seres humanos e o ambiente sonoro — paisagens sonoras, soundscapes, poluição sonora. Base teórica do field recording artístico.
Schafer, R. Murray. The Tuning of the World. New York: Knopf, 1977.
Técnicas de posicionamento e movimento do som no espaço tridimensional — surround, ambisonics, wave field synthesis, VBAP. Central na música eletroacústica, instalações e salas de concerto especializadas como o IRCAM.
Retorno do sinal de saída para a entrada, criando loops de amplificação que geram frequências e texturas impossíveis por outros meios. Técnica central em noise, free improvisation e na obra de artistas como Jimi Hendrix, Glenn Branca e Merzbow.
Prática de gravar sons em ambientes externos ao estúdio — natureza, cidades, objetos, máquinas. Usada como material composicional (musique concrète) e como prática artística autônoma (phonography). Equipamentos vão de gravadores de campo portáteis a hidrofones e microfones de contato.
Lane, Cathy; Carlyle, Angus (eds). In the Field: The Art of Field Recording. Axminster: Uniformbooks, 2013.
Movimento artístico internacional dos anos 1960 que misturou performance, poesia sonora, happening e música experimental. Figuras centrais: George Maciunas, Yoko Ono, Nam June Paik, La Monte Young. Influência fundamental na arte sonora contemporânea.
Smith, Owen. Fluxus: The History of an Attitude. San Diego: San Diego State University Press, 1998.
Corrente surgida nos EUA nos anos 1960 (Ornette Coleman, Cecil Taylor, Albert Ayler) que abandonou as progressões harmônicas e estruturas formais do jazz para uma improvisação coletiva radical. Influência direta na livre improvisação europeia.
Litweiler, John. The Freedom Principle: Jazz After 1958. New York: Morrow, 1984.
Subgênero do noise caracterizado por texturas densas, agressivas e de alta intensidade sonora — feedback extremo, distorção total, dinâmicas wall-to-wall. Distingue-se do noise "ambiental" pela intensidade e intenção confrontacional. Merzbow é a referência canônica.
Subgênero do harsh noise em que o som é apresentado como uma "parede" estática e imóvel — sem variação dinâmica, sem desenvolvimento, sem começo ou fim perceptível. A estase absoluta como posição estética.
Gênero surgido no fim dos anos 1970 (Throbbing Gristle, SPK, Einstürzende Neubauten) que incorporou ruído industrial, amostras perturbadoras, ética de confronto e questionamento dos limites da arte e do corpo. Base para power electronics, EBM e death industrial.
Ford, Simon. Wreckers of Civilisation: The Story of COUM Transmissions & Throbbing Gristle. London: Black Dog, 1999.
Convergência entre techno e música industrial surgida no fim dos anos 2000. Batidas pesadas, texturas metálicas, atmosferas opressivas. Referências: Surgeon, Paula Temple, Blawan, Regis.
Centro de pesquisa e criação musical em Paris, fundado em 1977 por Pierre Boulez. Referência mundial em composição espectral, síntese sonora, espacialização e desenvolvimento de tecnologias musicais (Max/MSP nasceu ali). Oferece residências e comissões para compositores.
Cena de noise surgida no Japão nos anos 1980, marcada pela intensidade extrema, performance física e figura do artista-autor prolífico. Merzbow (Masami Akita), Hanatarash (Yamatsuka Eye), Hijokaidan, C.C.C.C. Influência global enorme na cultura noise.
Novak, David. Japanoise: Music at the Edge of Circulation. Durham: Duke University Press, 2013.
Sistema de afinação baseado em razões de números inteiros, em oposição ao temperamento igual. Produz intervalos "puros" matematicamente mas incompatíveis com a música tonal ocidental moderna. Usado por La Monte Young, Harry Partch e no contexto do drone e da música espectral.
Partch, Harry. Genesis of a Music. 2nd ed. New York: Da Capo, 1974.
Prática de escrever e modificar código em tempo real como performance musical ou visual, geralmente com o código projetado para a audiência. Softwares: Tidal Cycles, SuperCollider, Sonic Pi, Hydra (visual). Comunidade organizada em torno do TOPLAP.
Collins, Nick; McLean, Alex; Rohrhuber, Julian; Ward, Adrian. "Live Coding in Laptop Performance." Organised Sound 8.3 (2003): 321-330.
Prática musical sem partitura, sem convenções de gênero e sem hierarquia entre performers — o material emerge exclusivamente da escuta coletiva no momento da performance. Derek Bailey cunhou o termo "non-idiomatic improvisation" para diferenciá-la do jazz e outras improvisações idiomáticas.
Bailey, Derek. Improvisation: Its Nature and Practice in Music. London: British Library, 1992.
Subcorrente do EAI caracterizada por sons extremamente discretos — quase inaudíveis, operando no limiar da percepção. O nome foi dado por Steve Roden. Valoriza a atenção intensificada do ouvinte e o contexto acústico do espaço de escuta.
Construção de instrumentos fora dos padrões estabelecidos — instrumentos preparados, objetos sonoros, circuitos customizados, esculturas sonoras. De Harry Partch (instrumentos para just intonation) a Hugh Davies e Nicolas Collins.
Collins, Nicolas. Handmade Electronic Music: The Art of Hardware Hacking. New York: Routledge, 2006.
Ambiente de programação visual para síntese sonora, processamento em tempo real e interatividade, desenvolvido no IRCAM por Miller Puckette (anos 1980) e depois comercializado pela Cycling '74. Padrão de facto em música eletrônica ao vivo e instalações interativas.
Puckette, Miller. The Theory and Technique of Electronic Music. Singapore: World Scientific, 2007.
Uso de intervalos menores que o semitom do temperamento igual ocidental. Inclui quartos de tom, oitavos de tom, afinações espectrais e just intonation. Compositores: Alois Hába, Harry Partch, Gérard Grisey, Georg Friedrich Haas, Mirceia Tiberian.
Gênero criado por Pierre Schaeffer em Paris (1948) a partir da manipulação de sons gravados — sons do mundo real transformados em material musical. A inversão da relação tradicional entre notação e som: o som como objeto, não como símbolo de algo.
Schaeffer, Pierre. Traité des objets musicaux. Paris: Seuil, 1966.
Chion, Michel. Guide des objets sonores. Paris: Buchet/Chastel, 1983.
Selo fonográfico que distribui exclusivamente por meios digitais (download, streaming), frequentemente com licenças Creative Commons. Proliferou nos anos 2000 como alternativa de custo zero para músicos experimentais.
Técnica de usar uma mesa de mixagem sem entradas externas — o ruído e o feedback da própria mesa tornam-se o material musical. Popularizada por Toshimaru Nakamura. Produz sons imprevisíveis e altamente sensíveis ao toque.
Campo amplo que usa ruído — tecnicamente, sinal sem periodicidade definida — como material musical primário. Inclui do harsh noise ao noise ambiental, do power electronics ao noise rock. Filosófica e historicamente ligado à negação da "musicalidade" como critério estético.
Hegarty, Paul. Noise/Music: A History. New York: Continuum, 2007.
Cena de improvisação experimental surgida em Tóquio no final dos anos 1990, caracterizada pela extrema economia de meios, dinâmicas mínimas e longos silêncios. Nome dado à corrente pelo crítico Masahiro Uemura. Artistas: Toshimaru Nakamura, Otomo Yoshihide, Sachiko M.
Prática de field recording como forma de arte autônoma — não como matéria-prima para composição, mas como objeto artístico completo. Termo cunhado por Alan Licht. A gravação documenta e interpreta o ambiente ao mesmo tempo.
Prática na fronteira entre poesia e música, em que a dimensão sonora da linguagem é explorada além do sentido semântico — fonemas, ruído vocal, fragmentação, glossolalia. De Hugo Ball (Dadá, 1916) a Henri Chopin, Jaap Blonk e Arrigo Barnabé.
Chopin, Henri. Poésie Sonore Internationale. Paris: Jean-Michel Place, 1979.
Subgênero do industrial surgido no início dos anos 1980 (William Bennett/Whitehouse) caracterizado por feedback extremo, vocais distorcidos e temáticas de violência, transgressão e poder. Distingue-se do noise pela presença vocal e pela intenção explicitamente provocadora.
Ambiente de programação visual para processamento sonoro e multimídia, criado por Miller Puckette como alternativa open-source ao Max/MSP. Amplamente usado em contextos acadêmicos e por artistas que preferem software livre.
Puckette, Miller. The Theory and Technique of Electronic Music. Singapore: World Scientific, 2007.
Corrente europeia dos anos 1990-2000 que radicalizou a economia de meios do EAI — pouquíssimas notas, silêncios longos, texturas quase inaudíveis. Associada ao selo austriaco Erstwhile Records e artistas como Radu Malfatti e Burkhard Beins.
Técnica de síntese que decompõe o som em milhares de "grãos" (fragmentos de milissegundos) e os reorganiza. Permite manipulações impossíveis no domínio contínuo — time-stretching sem mudança de pitch, nuvens de textura, dissolução de sons concretos. Baseada nas teorias de Curtis Roads e Iannis Xenakis.
Roads, Curtis. Microsound. Cambridge: MIT Press, 2001.
Sistema de síntese sonora composto por módulos independentes (osciladores, filtros, envelopes, sequenciadores) interconectados por cabos (patch cables). Formatos: Eurorack (padrão atual), Moog, Buchla. Cada patch é único e muitas vezes irreprodutível.
Linguagem de programação e ambiente de síntese sonora open-source criado por James McCartney (1996). Altamente flexível para síntese em tempo real, composição algorítmica e instalações. Padrão acadêmico e preferência de artistas de live coding.
Wilson, Scott; Cottle, David; Collins, Nick (eds). The SuperCollider Book. Cambridge: MIT Press, 2011.
Selo que distribui música em fita cassete, geralmente em tiragens muito pequenas (10–200 cópias), frequentemente numeradas e com arte manual. Ressurgiu nos anos 2000-2010 como formato físico de escolha para noise, experimental e lo-fi.
Uso de instrumentos convencionais de maneiras não previstas pela técnica clássica — arco no piano, sopro percussivo, multifônicos, preparações. Explorado por John Cage (piano preparado), Helmut Lachenmann (musique concrète instrumentale) e a maioria dos improvisadores contemporâneos.
Bartolozzi, Bruno. New Sounds for Woodwind. London: Oxford University Press, 1967.
Linguagem de live coding criada por Alex McLean, especializada em padrões rítmicos e polifonia cíclica. Roda em cima do SuperCollider. Uma das ferramentas centrais da comunidade TOPLAP.
McLean, Alex. Making Programming Languages to Dance to: Live Coding with Tidal. ACM SIGPLAN, 2014.
Organização informal global fundada em 2004 para promover live coding. Defende o manifesto "show us your screens" — código sempre visível para a audiência. Coordena eventos como Algorave.
Exploração vocal além do canto convencional — multifônicos, sussurros amplificados, glossolalia, throat singing, overblowing, manipulação eletrônica da voz em tempo real. Joan La Barbara e Diamanda Galás são referências centrais.
Tecnologia de espacialização sonora que recria fisicamente frentes de onda, permitindo que o ouvinte perceba fontes sonoras dentro ou além dos alto-falantes — ao contrário do stereo ou surround, que criam apenas ilusões. Requer grandes arrays de alto-falantes.
Berkhout, A. J. "A Holographic Approach to Acoustic Control." J. Audio Eng. Soc. 36.12 (1988): 977-995.